quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Debates em Nampula (1)


 

Nos dias 25 e 26 de Junho, dois meses depois da Revolução, fizemos em Nampula uma grande reunião do MFA de Moçambique, com a presença de todas as comissões regionais. Queríamos debater uma série de questões, transmitir o que sabíamos, auscultar o sentimento dos nossos camaradas e definir procedimentos futuros.

Foi uma discussão livre, de grande abertura, com muitas críticas aos poderes, com grande diversidade de opiniões. Para dar testemunho dos debates, elaborámos um extenso relatório, do qual só se transcrevem aqui algumas passagens.

O relatório foi lido pelo João na última sessão da Assembleia, sendo aprovado com algumas abstenções. Por ser longo, o João dividiu a leitura em várias partes. Eis a primeira:

 

“Realizou-se em Nampula nos dias 25 e 26 de Junho uma reunião plenária das comissões regionais do Movimento das Forças Armadas da Região Militar de Moçambique, onde da forma mais aberta se procedeu a um amplo debate sobre a situação do Movimento das Forças Armadas no actual contexto político-militar nacional e mais especificamente de Moçambique, e ainda sobre a situação política e sobre a situação militar de Moçambique.

O presente relatório não pretende ser uma acta da referida reunião, mas antes um resumo convenientemente orientado das discussões havidas, pondo em destaque as conclusões que progressivamente se foram retirando. Assim, o relatório desenvolver-se-á através dos seguintes pontos principais:

1.    O Movimento das Forças Armadas no actual contexto político-militar;

2.    A análise da situação política em Moçambique;

3.    A análise da situação militar em Moçambique;

4.    Conclusões finais.

 

1.    O MFA NO ACTUAL CONTEXTO POLÍTICO-MILITAR

 

1.1 Prossecução da paz e movimento de descolonização

Se o pronunciamento militar de 25 de Abril se realizou graças à coragem de um conjunto de camaradas que percebeu não ser mais possível permitir que os destinos e anseios de toda uma nação continuassem a ser vilipendiados, ao serviço de interesses inconfessáveis de verdadeiros traidores em desfavor dos reais objectivos e aspirações nacionais, não é menos certo que imediatamente ele foi determinado pela inconsistência de uma guerra colonial sem objectivos, que além de sacrificar em vidas e bens de todo o povo português, em especial o das camadas mais desfavorecidas, económica, política e socialmente, oprimia e destruía na carne, a vida económica, social e cultural do povo negro.

O próprio programa do MFA, reconhecendo o problema colonial como o mais importante dentro da vida política nacional, sem cuja resolução nada dentro do Portugal Novo que queremos construir, poderá ser iniciado, começa por afirmar logo na sua primeira linha: ‘Considerando que ao fim de 13 anos de luta em terras do Ultramar, o sistema político vigente não conseguiu definir concreta e objectivamente uma política ultramarina que conduza à paz entre os portugueses de todas as raças e credos’ (…).

O povo português quer ser livre. Está consciente do que significou a submissão do seu querer, durante quase cinco decénios, a interesses estranhos aos da comunidade portuguesa. Manifestou-o inequivocamente nos dias de euforia que se seguiram ao 25 de Abril. A experiência passada mostrou-lhe que essa liberdade nunca será possível enquanto o seu nome e sua vontade forem utilizados para oprimir e retirar a liberdade a outros povos. (…).

Está em jogo o prestígio da nação portuguesa e o próprio prestígio das Forças Armadas. O MFA reconhece perfeitamente que o prestígio das Forças Armadas, tão duramente abalado antes do 25 de Abril, se há-de reconquistar (…) na medida em que as Forças Armadas forem capazes de assumir o novo objectivo que se propõem à realização da paz e à restituição da dignidade aos povos da Guiné, Angola e Moçambique, denunciando, se necessário, todas as práticas que no seu seio sejam consideradas atentatórias dos novos ideais (…).

O MFA estará vigilante para que a execução do seu programa não desvirtue a pureza dos seus ideais, e interferirá por todos os meios ao seu alcance contra toda e qualquer pessoa ou organização que clara ou sub-repticiamente tente abalar o prestígio que justamente já alcançou, mas que julga ainda não plenamente reconquistado. (…)”.

 

O João interrompeu aqui a leitura, que devia continuar depois de um pequeno intervalo.

Ele andou eufórico durante a preparação e a realização desta grande reunião. Recebeu os participantes, distribuiu documentos, tomou notas, redigiu as conclusões. Fez também algumas intervenções, quase sempre escutadas com atenção e apoio.

No final, virando-se para mim, comentou:

- Acho que demos um importante passo em frente. Demonstrámos saber o que queremos e podemos agora falar em representação de todos.

- Não estou certo que isso chegue para mudarmos o rumo dos acontecimentos, mas não deixaremos de fazer sentir a nossa vontade junto dos camaradas de Lisboa.

(Continua)

 

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