quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Debates em Nampula (2)


Falamos ainda da reunião do MFA em Nampula nos dias 25 e 26 de Junho de 1974, dois meses depois da revolução.
O João, depois de um pequeno intervalo, continuou a leitura do relatório da reunião:
“1.2. Democratização do MFA
O Movimento das Forças Armadas, por imperativo do ideário que gerou bem como pelas finalidades que se propôs e se propõe, é um movimento democrático. Se a democracia é uma forma de vida, o MFA não pode existir com diferente padrão e carece de se estruturar rapidamente e de forma actuante, praticar o modelo democrático. E é tanto mais urgente a celeridade de tal processo quanto é cada vez mais manifesta a tendência das instituições político-militares nacionais de se acomodarem e darem por concluído um trabalho apenas começado com a jornada do 25 de Abril.
1.2.1. Emanação das unidades
Se uma das ideias força do Movimento é a sua extensão às Forças Armadas com a meta última e ideal de com elas se confundir, torna-se urgente dar-lhe corpo através de uma actuação pedagógica e de esclarecimento dos seus objectivos junto de todos os militares. Mas é urgente iniciar tal campanha.
1.2.2. Estrutura proposta
O MFA em Moçambique propõe-se estruturar-se articulando os órgãos ou grupos de trabalho a seguir indicados:
a.    Comissão do MFA junto do Governador-Geral (…)
b.    Gabinete do MFA junto do Comandante-Chefe (…)
c.    Comissões Regionais do MFA, constituídas junto dos Comandos de Sector (…)
d.    Delegações do MFA nas unidades ou outros órgãos:
Serão constituídas por Oficiais, Sargentos e Praças dos quadros permanentes e de complemento sempre que seja possível, eleitos democraticamente dentro de cada classe, e actuarão em conformidade com as directivas para a estruturação democrática do MFA e preservação da disciplina e hierarquia dimanadas dos órgãos do MFA. (…)
1.2.3. Reconhecidas foram, contudo, as limitações impostas pelas distâncias que separam os núcleos do MFA em actuação na Metrópole e na África, que implicam morosos e difíceis contactos com evidente prejuízo da unidade de acção que se deseja.
Para obviar, tanto quanto possível, a tais inconvenientes propôs-se que (…) se desloque a Lisboa todas as quinzenas um mensageiro, elemento do MFA (…)
 Uma vez ali, entrará em contacto pessoal com os camaradas do Movimento a fim de melhor esclarecer as questões relativas a Moçambique e recolher informações e directivas com vista a uma estratégia comum.
Igualmente se sugeriu que Angola e Guiné façam deslocar o seu mensageiro, elaborando-se um programa de visitas que possibilite a presença simultânea de representantes dos diversos núcleos de trabalho do MFA.
a.    Tal medida constitui a única forma de assegurar a coesão à volta dos objectivos democráticos e patrióticos do Movimento das Forças Armadas (…)
b.    Só desta forma o Movimento das Forças Armadas estará à altura das responsabilidades históricas que assumiu perante o Povo Português (…)
c.    Reencontrada a sua dignidade e patriotismo, as Forças Armadas não podem aplicar as velhas directivas do antigo regime, pois têm uma elevada missão formativa – serem garantes da execução séria e integral do Programa do MFA, em consonância com as aspirações populares. (…)
d.    Facilmente se verifica que, para atingir estes objectivos, o MFA não pode continuar a ser uma estrutura reduzida e fechada. (…)
e.    A hierarquia militar – e importa esclarecer que, como é óbvio, não é objectivo do MFA pô-la em causa – deve mais do que nunca ser compreendida e reforçada, assentando na liberdade, na responsabilidade e na cooperação consciente por objectivos comuns. (…)
 
1.3. Eficiência do sistema de informação
A Assembleia das Comissões Regionais reconheceu que a eficácia do trabalho do MFA em todos os seus níveis depende da existência de canais de informação suficientemente seguros e abundantes entre todos os seus membros e órgãos, quer eles se situam em terras de África ou europeias. Sem eles haverá lugar incontestavelmente para um isolamento progressivo do Movimento, que pode levar mesmo ao seu desmembramento, objectivo que as entidades mais reaccionárias, em todos os escalões de administração, pública ou privada, procuram atingir (…)
As insuficiências até agora sentidas vão-se tornando cada vez mais graves, pois que se começa a verificar que por exemplo ao nível do escalão nacional não se definem directrizes claras para cada um dos territórios sob administração portuguesa e, por outro lado, o MFA em cada um destes territórios não actua porque, embora conhecendo a situação político-militar que lhe é particular, desconhece em que medida as suas tomadas de posição poderão ou não comprometer o escalão mais alto do MFA (…)”.
 
O João leu ainda o restante relatório, mas o essencial estava resumido. No final deram-se as palmas da praxe, mas nem todos saíram plenamente satisfeitos. Muitos das intervenções mais exaltadas só vagamente ficavam expressas no documento final, tendo os redactores optado por uma linguagem moderada e de abertura, com compreensão pelas circunstâncias em que todos nos movíamos.
Era um facto que nada estava decidido, mas já pressentíamos a grande mudança que se preparava com o reconhecimento dos movimentos de libertação pela parte portuguesa. Esse era o caminho mais lógico, mas só muito lentamente se foi impondo a todos.
 
- Agora, que auscultámos os nossos camaradas, vamos ter que apresentar argumentos mais fortes. A revolução tem que chegar às colónias, com o reconhecimento do direito à independência e as conversações com os movimentos de libertação. Cada dia será uma luta por esses objectivos – a voz do João levantava-se na defesa dos seus pontos de vista sempre que tinha oportunidade.
- Entre nós, ninguém duvida que, com muita brevidade, teremos notícias promissoras…
 
 

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