quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

A revolta da Companhia




Depois de dois meses de indecisões, as unidades espalhadas pelo território exibiam sintomas de grande desequilíbrio psicológico. Isto era principalmente visível naquelas que se situavam em zonas difíceis ou cujo comando carecia de qualidade e competência.

Os oficiais do Gabinete do MFA começaram a ser solicitados para se deslocarem a estas unidades, tentando evitar situações limite, de grave indisciplina ou outras atitudes comprometedoras. Nos últimos dias de Junho soubemos que a Companhia de Luatize, no Niassa, se recusava a fazer acções ofensivas, por, segundo diziam, não quererem mais combater contra os seus irmãos da Frelimo. A guarnição era, na quase totalidade, constituída por elementos do recrutamento de Moçambique, portanto, negros.

Desta vez calhou-nos, a mim e ao major Vieira Monteiro, a missão delicada de ir ao encontro destes militares e explicar-lhes o inexplicável, ou seja, não lhes dar razão, sabendo que eles a tinham.

Foi uma jornada difícil, de muitos equilíbrios, de posições comedidas, tanto quanto possível esclarecedoras da situação, mas sem resvalar para qualquer tipo de compromisso definitivo com um lado ou o outro. Nós sabíamos que seríamos bem aceites junto dos soldados da Companhia, mas olhados com algumas desconfiança junto dos comandos do Sector de Vila Cabral (Niassa). Não podíamos por isso demonstrar dúvidas sobre o caminho a fazer, mas sem que isso pusesse em causa os princípios do comando e da hierarquia.

O relatório que elaborámos reflecte esta orientação – concordância no essencial, mas exigência de comportamentos adequados à situação. Todos apoiaram, também porque ninguém tinha boas soluções!

Eis o relatório:

“Relatório da visita a Luatize

1. Em 29 de Junho de 1974 efectuou-se:

    a) Reunião no Sector A com a presença de:

        - Comandante do Sector A

        - Chefe do Estado-Maior do Sector A

        - Comandante do Batalhão de Valadim

        - Oficial de operações do Sector A

        - Oficial de Acção Psicológica do Sector A

        - 2 oficiais do MFA

b) O Comandante do Sector A expôs os antecedentes da Companhia e as razões que no seu entender levaram à actual situação.

c) O Comandante interino do Batalhão de Valadim expôs as conclusões da sua visita a Luatize feita dois dias antes, já após o incidente.

d) O chefe do Estado-Maior fez notar que a posição do Quartel-General era categórica ao ordenar a intensificação e agressividade da actividade operacional.

e) O Comandante do Sector e um dos elementos do MFA expuseram a indicação verbal feita pelo Chefe do Estado-Maior do Quartel-General no sentido de se poder comunicar à Companhia de Luatize que não faria actividade operacional ofensiva.

f) O Comandante do Batalhão referiu que na sua visita, para além de auscultar os anseios dos militares de Luatize ficara assente com eles que fariam apenas actividades de segurança e defensiva.

g) O Comandante de Sector referiu que propusera e lhe parecia a melhor solução, retirar pura e simplesmente a Companhia de Luatize, desde que fosse substituída e as condições de vida do aquartelamento fossem nitidamente melhoradas.

h) Todos os oficiais referiram o antecedente perigoso e de consequências imprevisíveis que constituía o facto de se dizer à Companhia que ficaria dispensada de fazer operações ofensivas. Era evidente que toda a Região Militar, em cadeia, se recusaria a efectuar essa actividade.

i) Os dois oficiais do MFA, reunidos mais tarde, resolveram, em face dos novos factores em causa:

- Ir a Luatize na 2ª feira, dia 1 de Julho;

- Não prometer nada à Companhia, a não ser expor a quem pudesse decidir, todos os problemas que eles apresentassem;

- nada mais fazer se não auscultar.

j) No próprio dia 29 comunicaram esta decisão ao Comandante de Sector.



2. Em 1 de Julho de 1974:

Os dois oficiais do MFA visitaram a Companhia aquartelada em Luatize.

Os militares (oficiais, sargentos e praças) da Companhia apresentaram os seguintes problemas:

   a) Não desejarem efectuar mais operações ofensivas às bases da Frelimo, por não desejarem combater mais os seus irmãos.

   b) Que viviam em precárias condições, em virtude de:

     1) Falta de ligações terrestres com outras unidades, o que provoca:

       - Reabastecimento muito deficiente, havendo carências de combustíveis, géneros e artigos de cantina;

       - Dificuldades no gozo das licenças disciplinares. As poucas gozadas implicam o fretamento de um táxi aéreo pelos interessados (1.100$00 por cabeça);

       - A agudização do problema sexual, pois não existem na área, populações (há militares que há mais de um ano não vêem uma mulher);

       - Dificuldades no processamento da substituição do pessoal, mesmo quando o substituto já está nomeado e aguarda transporte em Vila Cabral;

       - Falta de assistência médica (itinerância duas vezes por mês) agravada pela dificuldade de frequência das consultas externas;

      2) Instalações improvisadas (a maior parte delas são palhotas) determinam a incomodidade e falta de higiene, o que cria condições para a proliferação de doenças.

      3) Material de aquartelamento é manifestamente insuficiente.

  c) Desejo unânime de que a Companhia saia de Luatize.


3. Face aos problemas apresentados somos de parecer que:

As condições actuais são susceptíveis de criar graves problemas de ordem disciplinar, insubordinação ou mesmo rebelião, caso a Subunidade continue aquartelada em Luatize.

4. Para resolver a questão propõe-se:

a) A retirada pura e simples da Companhia de Luatize.

b) Se, por condicionamentos tácticos, for considerado impossível o preconizado na alínea anterior, torna-se imprescindível, a um prazo muito curto, estabelecer ligações terrestres normais com Luatize (tornar operacional a picada que liga a Nova Viseu) e melhorar as condições de vida do aquartelamento, com vista à substituição da Companhia por outra”.

 

Quando leu o relatório, o João não pôde deixar de comentar:

- A que ponto se deixou degradar a situação militar! Como se poderia continuar este caminho, enviando companhias inteiras para locais destes, sem ligações, sem assistência, sem apoio, entregues a si mesmas? Como foi possível?

E todos nós ficámos sem palavras…


4 comentários:

  1. E assim nos deixaram abandonados sem recursos ou apoio logistico para evacuacao no final da guerra. Perdemos mais homens em Setembro de 1974 do que durante as operacoes as bases inimigas.
    O ultimo a sair de Luatize, Alf. Mil. da 1a. CCac. Bat.16

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    1. Estive no Luatize com a 1ª CCaç Bat 16. Será que posso saber o nome do sr Alferes que esteve comigo nesta zona tão inóspita?

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  2. É provável que ainda haja que sem recorde do dia em que fomos atacados, ficámos sem munições pesadas e poucas ligeiras, e, após mensagens relâmpago, lá apareceu um "Alouette III", com uma caixa de granadas de morteiro 80 e uma ou duas de munições que, um sr alferes do PAD de fato camuflado e botas novinhas em folha nos trouxe e com grande desplante se atreve a perguntar para que solicitamos via MSG tantas munições?! - Chama-se a isto HISTÓRIAS DE GUERRA no Luatize.

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  3. Sera que es o Furriel do quadro Sr. Vieira? Tinhamos um outro Furriel Vieirinha tambem.
    Eu sou o ultimo, lembras do Alf. Mil. Cok?

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