quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Moçambique – o MFA democratiza-se

 

Ainda se sentiam os ecos da reunião das Comissões Regionais do MFA em Nampula em 26 de Junho, e já a hierarquia, de acordo com as directivas saídas daquela reunião, se apressava a cumprir as orientações superiores, no sentido da constituição de comissões regionais do MFA através de um processo democrático.

Por exemplo, em Lourenço Marques, o coronel Mário de Lima, chefe do Estado-Maior do Comando Territorial do Sul, assinava a seguinte directiva para a “Constituição da Comissão Regional do MFA”, datada de 28 de Junho e enviada a todas as unidades e estabelecimentos militares:

“Torna-se necessário proceder à eleição da Comissão Regional do Movimento das Forças Armadas, entre oficiais da guarnição militar de Lourenço Marques, tendo em vista a dinamização local do Movimento. Nestas condições, encarrega-me o Exmo. coronel comandante do CTS de solicitar a V.Exª. a difusão por todos os oficiais dessa unidade ou estabelecimento militar do seguinte:

No próximo dia 1 de Julho às 18H00 a sala de cinema do Clube Militar encontra-se à disposição dos oficiais milicianos da guarnição de Lourenço Marques; o objectivo é a eleição de um seu representante para inclusão na Comissão Regional.

O oficial mais antigo assumirá a presidência da reunião e nomeará dois oficiais para a constituição da mesa de presidência. A eleição seguirá moldes democráticos; os oficiais que, por motivos de serviço ou outros não puderem estar presentes, exercerão o seu direito de voto através do oficial mais antigo da sua unidade ou estabelecimento que assistir; este oficial deverá ter em poder documento comprovativo da ‘procuração’, devidamente assinado.

O presidente da reunião elaborará acta sumária, que entregará no CTS.

No próximo dia 1 de Julho às 20h30 a sala do cinema do Clube Militar encontra-se à disposição dos oficiais do quadro permanente de Lourenço Marques, para eleição de dois oficiais, a incluir na Comissão Regional.

O sistema de eleição seguirá precisamente os moldes indicados no número anterior.

O presidente da reunião elaborará acta sumária, que entregará no CTS.

A Comissão Regional a constituir terá a seguinte formação:

- Exército: 2 oficiais do QP

                  1 oficial do QC

- Armada: 1 oficial do QP

- F. Aérea: 1 oficial do QP

                1 oficial do QC (será também representante da Armada – reserva naval).

Esta Comissão ligar-se-á com a Comissão existente em Nampula e com as restantes Comissões Regionais. Visará fundamentalmente conservar o espírito do Movimento das Forças Armadas e contribuir para a coesão e esclarecimento de todos os militares”.   

 

Segundo soubemos, no dia aprazado, efectuaram-se as reuniões que decorreram na melhor ordem e elegeram por voto secreto e universal, os representantes do Exército à Comissão Regional.

Esta foi seguramente, uma das primeiras experiências democráticas do MFA organizada pela hierarquia. Se por um lado era inevitável um certo compromisso com as orientações militares do comando, que aliás sempre defendemos a partir de Nampula, por outro abriam-se verdadeiras oportunidades de cooperação e de entendimento, tendo em conta os objectivos que começavam a apresentar-se como comuns, face ao evoluir da situação. Todos queríamos uma solução para o problema de Moçambique e todos acreditávamos que ela passava por uma negociação política com a Frelimo. As últimas resistências iam-se atenuando, pela inevitabilidade do resultado final.

O João procurava aproveitar a oportunidade, insistindo:

- Nós devemos, agora que começamos a ter a força da representação democrática, fazer exigências mais concretas e mais incisivas, não podemos continuar nesta indefinição que só agrava as condições da nossa acção e compromete as relações futuras com os novos governantes de Moçambique.



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